Hipomania: por que muitas pessoas não percebem os sintomas?

A hipomania é uma fase do transtorno bipolar. Tem os mesmos sintomas da mania, mas seus esses costumam ser menos intensos e, em alguns casos, podem até ser percebidos como algo positivo pela própria pessoa.

Mais energia, maior produtividade, redução da necessidade de sono, aumento da sociabilidade e sensação de maior criatividade podem fazer com que a hipomania passe despercebida — tanto pela pessoa quanto por familiares e pessoas próximas.

Muitas vezes a hipomania se manifesta com irritabilidade e pode ser confundida como característica da personalidade da pessoa.

Por isso, reconhecer o padrão desses episódios é importante para uma avaliação adequada.

O que é hipomania?

A hipomania é um período marcado por uma alteração persistente e perceptível do humor e do nível de energia ou atividade.

Durante esse período, podem aparecer:

  • aumento incomum da energia;
  • redução da necessidade de sono;
  • maior disposição para realizar atividades;
  • fala mais rápida ou maior necessidade de falar;
  • pensamentos acelerados;
  • aumento da autoestima ou sensação de maior confiança;
  • maior sociabilidade;
  • aumento da impulsividade;
  • dificuldade para manter a atenção;
  • envolvimento maior em atividades que podem trazer consequências, como gastos excessivos ou comportamentos de risco.

Um ponto importante é que hipomania não significa simplesmente estar de bom humor ou ter um dia produtivo. Trata-se de uma mudança em relação ao padrão habitual de funcionamento da pessoa.

Por que a hipomania pode passar despercebida?

1. A pessoa pode se sentir muito bem

Ao contrário de um episódio depressivo, que geralmente provoca sofrimento evidente, a hipomania pode ser vivenciada inicialmente como uma fase de maior disposição e motivação.

A pessoa pode pensar que finalmente está “rendendo mais”, “precisando de menos sono” ou “mais inspirada”.

2. Os sintomas podem ser confundidos com características da personalidade

Alguém mais comunicativo, extrovertido ou cheio de ideias pode não perceber que houve uma mudança significativa em seu comportamento.

O que diferencia a hipomania não é apenas a presença de determinado comportamento, mas a mudança em relação ao funcionamento habitual e a combinação dos sintomas ao longo do tempo.

3. A redução do sono pode parecer uma vantagem

Dormir menos e continuar se sentindo disposto pode ser interpretado como produtividade.

Porém, é importante diferenciar insônia de redução da necessidade de sono. Na hipomania, a pessoa pode dormir menos e ainda assim não sentir o cansaço que normalmente sentiria.

4. Nem sempre existe prejuízo evidente

A hipomania pode não causar o mesmo nível de prejuízo funcional associado à mania.

Por isso, a pessoa pode continuar trabalhando, estudando e mantendo suas atividades, o que pode dificultar o reconhecimento de que existe uma alteração do humor.

5. O episódio pode ser identificado apenas quando comparado ao histórico

Muitas vezes, familiares ou pessoas próximas percebem mudanças que o próprio indivíduo não reconhece.

Comentários como “você está diferente”, “está falando muito mais” ou “você quase não está dormindo” podem ser importantes quando aparecem associados a outras mudanças de comportamento.

Hipomania é apenas excesso de energia?

Não.

Ter mais energia ou estar mais animado ocasionalmente faz parte da variação normal do humor.

A hipomania envolve uma mudança clara e persistente em relação ao padrão habitual, acompanhada por outros sintomas característicos.

Por isso, não é adequado concluir que uma pessoa está em hipomania apenas porque está mais produtiva, alegre ou motivada.

Qual a relação entre hipomania e transtorno bipolar?

A presença de episódios de hipomania é uma característica importante do transtorno bipolar tipo II, quando também existem episódios depressivos.

Já o transtorno bipolar I é caracterizado pela ocorrência de pelo menos um episódio de mania. Episódios hipomaníacos e depressivos também podem ocorrer ao longo da história clínica.

O diagnóstico, entretanto, não é feito com base em um único sintoma. É necessário avaliar a duração, a intensidade, a combinação dos sintomas, os prejuízos provocados e toda a história clínica.

O que pode ajudar a identificar a hipomania?

Observar o comportamento ao longo do tempo pode ser muito útil.

Algumas perguntas podem ajudar na investigação:

  • Houve períodos em que a pessoa precisou dormir menos sem se sentir cansada?
  • Nesses períodos, ela ficou mais acelerada ou falante?
  • Houve períodos de maior irritabilidade?
  • Houve aumento incomum de energia ou produtividade?
  • Aumentaram os gastos ou comportamentos impulsivos?
  • Familiares perceberam uma mudança significativa?
  • Esses períodos se repetiram?
  • Depois deles, ocorreram episódios de depressão ou mudanças importantes no humor?

Registrar sono, energia, humor e mudanças de comportamento também pode ajudar o profissional a identificar padrões ao longo do tempo.

Por que reconhecer a hipomania é importante?

Quando a hipomania não é reconhecida, a história clínica pode parecer incompleta.

Uma pessoa pode procurar atendimento principalmente por episódios depressivos, enquanto períodos anteriores de aumento de energia, menor necessidade de sono e impulsividade passam despercebidos ou são interpretados apenas como fases de maior produtividade.

Por isso, investigar episódios anteriores é uma parte importante da avaliação de possíveis transtornos do humor.

Quando procurar avaliação?

Uma avaliação psiquiátrica pode ser importante quando existem mudanças recorrentes e marcantes no padrão de sono, energia, humor ou comportamento, principalmente quando essas mudanças são acompanhadas por impulsividade, prejuízo nos relacionamentos, dificuldades profissionais ou episódios depressivos.

A presença de alguns desses sinais não significa, por si só, que exista transtorno bipolar. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica individualizada.

Conclusão

A hipomania pode ser difícil de reconhecer justamente porque nem sempre é percebida como um problema.

Aumento de energia, produtividade, sociabilidade e redução da necessidade de sono podem parecer características positivas quando analisadas isoladamente. O que chama a atenção é a mudança em relação ao padrão habitual e a presença de um conjunto de sintomas que se mantém por determinado período, além da história de episódios depressivos ao longo da vida.

Reconhecer esses episódios é importante para compreender a história da pessoade forma mais completa e contribuir para uma avaliação diagnóstica adequada.

Se você percebe mudanças recorrentes e significativas no seu padrão de sono, energia, humor ou comportamento, procure avaliação profissional.

Referências

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