Minha jornada até a Psiquiatria

Por muitos anos, minha vida seguiu o roteiro que eu havia traçado. Formei-me em medicina, especializei-me em Cirurgia Geral e depois em Cirurgia Vascular. A precisão do bisturi, a adrenalina do centro cirúrgico… tudo parecia no lugar. Para quem via de fora, o caminho era de sucesso. Mas, por dentro, eu sentia que faltava algo.

A primeira pista do meu verdadeiro propósito apareceu nos lugares mais inesperados: em consultórios de cidades pequenas, no interior. Lá, com a agenda mais calma, eu pude fazer o que a correria dos grandes centros muitas vezes nos rouba: eu pude ouvir.

Eu ouvia as histórias por trás das queixas físicas. Notava quantos pacientes chegavam já tomando antidepressivos e ansiolíticos, e comecei a me interessar por suas jornadas. As respostas que eu ouvia eram fascinantes. Eles não falavam apenas de remédios; falavam de como o tratamento psiquiátrico lhes devolvia a cor, o sentido, a vida.

Troquei o centro cirúrgico pelo ambulatório, a certeza do procedimento pela complexidade da alma humana. Foi um caminho de muita dedicação, de viagens semanais a São Paulo para aprender com os melhores no GRUDA-IPq-USP, e de uma redescoberta completa de mim mesmo.

Hoje, quando um paciente se senta à minha frente, eu não vejo apenas um conjunto de sintomas. Eu vejo uma história. E sei que minha ferramenta mais importante não é o receituário, mas a mesma que me trouxe até aqui: a escuta atenta, curiosa e genuinamente interessada.

A cirurgia me ensinou a curar o corpo. A Psiquiatria me ensinou a cuidar de pessoas. E sou imensamente grato por ter tido a coragem de ouvir o chamado.

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